Anvisa aprova imunoterapia inédita contra câncer de mama; entenda como funciona

Na última semana, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou o primeiro tratamento de imunoterapia para câncer de mama no Brasil. O atezolizumabe é a substância registrada e promete aumentar a sobrevida de pacientes com um tipo de câncer de mama específico, o triplo-negativo, relativamente raro e que constitui o subtipo mais grave dos tumores de mama.
“Os mecanismos pelos quais as células tumorais realizam esse bloqueio foram elucidados a partir das pesquisas dos ganhadores do Nobel, que descobriram a presença de duas proteínas nas células cancerígenas.
Segundo dados da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) este câncer responde por cerca de 15% dos tumores de mama, normalmente tratados com quimioterápicos tradicionais, pouco eficazes contra a doença metastática.
Para Sergio Simon, presidente da SBOC, dentro desse grupo de pacientes com câncer triplo-negativo, 40% irão se beneficiar desse tratamento. Isso é definido pela expressão da proteína PD-L1, um receptor localizado na superfície das células imunes que indica a possibilidade de sucesso com o tratamento de imunoterapia.
Como funciona
O uso da imunoterapia contra tumores teve como marca o Prêmio Nobel da Medicina de 2018, conquistado pelos imunologistas James P. Allison e Tasuku Honjo. Eles foram escolhidos a partir da descoberta de que o sistema imunológico pode ser usado para atacar as células cancerígenas, a partir de certos medicamentos.
Para o oncologista clínico e pesquisador João Soares Nunes, a imunoterapia é o que de mais novo e mais promissor há no tratamento do câncer, que caminha para um olhar personalizado para cada paciente, a partir da compreensão do funcionamento das células.
“O grande salto veio nos últimos cinco anos, quando chegou a imunoterapia, que mudou um paradigma porque íamos de medicações que matavam as células para as que estimulam o sistema imunológico para que ele destruísse a célula tumoral. Agora, temos dois novos grupos de drogas: as que aceleram nosso sistema imunológico e as que tiram os freios do sistema, bloqueados por ação de células cancerígenas”, explica. Naturalmente, o sistema biológico procura formas de combater e destruir as células que sofreram mutação. Entretanto, as células cancerígenas conseguem bloquear as responsáveis pela imunidade.
Os mecanismos pelos quais as células tumorais realizam esse bloqueio foram elucidados a partir das pesquisas dos ganhadores do Nobel, que descobriram a presença de duas proteínas (CTLA-4 e PD-1) nas células cancerígenas.
“Aplicado inicialmente ao melanoma (câncer de pele), as drogas para combater essas proteínas e ‘desbloquear’ o sistema imunológico conseguiram curar, em média, 20% dos pacientes e trazer resultado muito melhor para outros que, antes, tinham expectativa de sobrevida de, no máximo, 6 meses. A partir daí, começou-se a aplicar a imunoterapia a outros tumores que apresentam essas proteínas em sua composição, como em casos de câncer de rim e de pulmão. E os estudos seguem para avaliar sua aplicabilidade em outros casos”, conta.
O médico, que coordenou o departamento de oncologia clínica do Hospital do Câncer de Barretos e hoje atua no Hospital Erasto Gaertner, em Curitiba, explica que a oncologia clínica se desenvolve em três vertentes: o tratamento, com o desenvolvimento de novas drogas e procedimentos para alcançar a cura, aumentar a sobrevida ou diminuir o desconforto do paciente; no entendimento da biologia do câncer; e no acesso, para que essas inovações fiquem o quanto antes à disposição dos pacientes.
A adoção da imunoterapia como uma das formas do tratamento é, na visão do oncologista, o grande avanço da ciência no segundo aspecto, o da compreensão da doença. “Há pouco tempo, a pesquisa era feita de uma forma mais empírica: testávamos se determinadas substâncias tinham efeito sobre algum tipo de célula de câncer” diz ele.
Nas últimas décadas passou-se a tentar compreender o funcionamento dessas células para desenvolver as medicações exatamente em cima das novas descobertas, que incluem o DNA, as mutações e seus mecanismos.
“Tivemos avanços fantásticos nisso também e começamos a desenhar moléculas exclusivamente para aqueles alvos. Mas isso é um dos maiores mistérios que ainda existem, pois é como explorar o espaço, a cada resposta que se chega, surgem várias novas perguntas. É sempre uma crescente de investigação. Mas hoje, baseado nesse princípio de estudar a célula e entender como ela funciona para, então, desenvolver a droga estamos conseguindo os grandes avanços”, acrescenta.
Com isso, o cenário atual nos mostra a um tratamento cada vez mais personalizado para o câncer. “A gente caminha para a medicina de precisão. Câncer de mama não é só câncer de mama, conseguimos identificar o tipo de tumor, os fatores clínicos e o perfil de efeito colateral do paciente. Com isso, podemos construir uma árvore decisória e desenhar o melhor tratamento para cada pessoa”, diz o médico.
Essa evolução já pode ser vista em números. O Hospital Erasto Gaertner, principal hospital especializado em câncer do Paraná, conseguiu elevar, em 20 anos, a taxa de sobrevida dos pacientes com câncer de 49% para 69%.
“Cada dia mais, até pelo próprio diagnóstico, influência da faixa etária, mutação genética, a gente está indo para a medicina personalizada que, pela pesquisa e pelo diagnóstico, vamos oferecer o tratamento mais adequado”, expõe o superintendente do hospital, Adriano Lago.
Diagnóstico precoce
As drogas para o tratamento do câncer estão sendo utilizadas de maneiras cada vez mais específicas. A radioterapia está mais precisa e as técnicas de cirurgia evoluíram para serem mais seguras e menos invasivas, mas o grande segredo para a cura do câncer segue sendo o diagnóstico precoce.
“O sucesso do tratamento está diretamente relacionado com o período de início. Se pegarmos um câncer em estágio inicial, temos boas possibilidades de cura. Uma vez que o tumor dissemina, tem metástase, temos um problema que é a clonalidade e a capacidade de as células se adaptarem e resistirem aos anticorpos e às medicações. Podem acontecer multiplicações das células, gerando clones imortais. E a cada mutação, as gerações de células ficam diferentes e a as chances de sucesso dos inúmeros tratamentos disponíveis diminui”, explica oncologista João Soares Nunes.
Câncer em exame
O engenheiro agrônomo aposentado Antonio Garcia, aos 72 anos, vem de Londrina a Curitiba a cada 28 dias para passar por uma rigorosa bateria de exames. Ele trata um carcinoma hepático no fígado e participa de um estudo para a avaliação de uma nova droga imunoterápica para a doença.
“Já removi parte do fígado para extrair um tumor, tratei outros três com radiação, mas, em agosto, descobri um nódulo muito próximo a um vaso importante do fígado, que não permite esse tipo de tratamento porque pode comprometer o vaso. Então, fui encaminhado para o tratamento com uma droga que inibe o crescimento do tumor. Meus exames são comparados com os de outros pacientes do experimento que estão sendo medicados com novas drogas, imunoterápicas”, explica.
Segundo ele, seu estado é estável, seus exames de sangue estão praticamente iguais aos do começo do tratamento, e ele sofre apenas os efeitos colaterais do tratamento, tendo perdido cinco quilos até o momento.
“Hoje, o tratamento é para evitar o crescimento do tumor. Espero que o meu fique sob controle até que se desenvolva uma droga capaz de me curar”, acrescenta. “Na minha profissão, trabalhei muito com pesquisa experimental e sei bem como isso é importante. Agora estou oferecendo meu corpo para o avanço da medicina’, conclui.
Estudos pioneiros usa probióticos
As pesquisas com pacientes de câncer também visam diminuir o tempo de internação e os efeitos colaterais dos tratamentos, bem como proporcionar uma melhor qualidade de vida ao paciente com câncer.
Um estudo da nutricionista curitibana Camila Brandão Polakowski está mudando protocolos mundiais de suplementação alimentar em pacientes pré-operatórios de câncer. Ela comprovou que o uso de probióticos antes da operação reduz o tempo de internação do paciente no pós-operatório em até 75%, diminui o risco de complicações, diminui o tempo e quantidade de antibiótico a ser administrado e, por consequência, reduz em até 200 vezes o custo do tratamento.
“Estudamos o intestino dos pacientes com câncer e percebemos que havia alguns marcadores inflamatórios (interleucina 6 e interleucina 12) relacionados à imunidade. Pensando nisso, nosso problema foi modular o intestino do paciente para aumentar sua imunidade”, conta a nutricionista.
“No fim do estudo, concluímos que os pacientes que receberam probióticos nos sete dias anteriores à cirurgia apresentaram maior imunidade no dia da cirurgia e, consequentemente, bem menos complicações no pós-operatório”, relata.
O estudo da Camila Polakowki já virou diretriz para o jejum pré-operatório. Agora, o próximo passo é padronizar um tratamento para implementá-lo no Sistema Único de Saúde.
Curitiba também é pioneira na cirurgia de transposição uterina para preservação da fertilidade em mulheres com câncer na região pélvica. O procedimento consiste em trocar o lugar do útero, enquanto as pacientes são submetidas à radioterapia.
Isso porque quando o tratamento atinge útero e ovários as mulheres ficam inférteis. O órgão, junto com os ovários, é transferido para o abdome. Após o tratamento radioterápico, é feita a reversão dos órgãos.
A primeira cirurgia deste tipo no mundo foi feita em 2015 na capital paranaense. “O protocolo foi aberto para 10 casos, estamos nos encaminhando para o final da pesquisa inicial, recrutando a 10ª paciente”, explicou o médico Reitan Ribeiro, que coordena esse estudo.
Nessa primeira fase, o protocolo avalia a segurança do procedimento e os resultados que, segundo o médico, são promissores. Concluída a 10ª cirurgia, a pesquisa avançará para avaliar a função reprodutiva das pacientes, “que é nosso objetivo final”.
Dentro do Hospital Erasto Gaertner funciona, também, um Instituto de Bioengenharia, que produz, em escala industrial, instrumentos e dispositivos para facilitar o trabalho dos médicos e a vida dos pacientes daquela e de outras instituições.
Um dos principais produtos é um cateter implantável, que recebe o medicamento da quimioterapia e o conduz ao coração, evitando a necessidade de acesso a veias a cada nova dose da medicação. “Também estamos utilizando a impressão 3D para a produção de moldes ou de protótipos com anatomia igual a do paciente, a partir de imagens em três dimensões”, diz o supervisor do instituto, Emerson?Czachorowski.
Um dos primeiros a usar a impressora 3D para cirurgias de câncer foi o cirurgião-dentista Laurindo Moacir Sassi. “Hoje, com a evolução da tecnologia podemos realizar cirurgias virtuais. A?impressora veio para nos assistir em cirurgias realizadas em pacientes com tumor. Assim é possível simular a cirurgia, delimitando os limites ósseos para retirada do tumor e a reconstrução dos tecidos”, conta.
Fases de desenvolvimento
O desenvolvimento de um novo medicamento compreende quatro fases, em um processo que leva mais de 15 anos.
1º: Na primeira fase, é o teste se a substância tem algum princípio ativo.
2º De cada 10 mil substâncias testadas na primeira fase, apenas 250 passam para a segunda, que é de estudos pré-clínicos.
3º: Dessas 250 substâncias, apenas 5 transformam-se em estudos envolvendo pacientes
4º: no final, apenas uma torna-se, de fato, um medicamento.”

Fonte: Gazeta do Povo

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