A Ignorância não é uma benção

Congressista que não quer farmacêutico nas farmácias porque seria “corporativismo” exibe constrangedora ignorância sobre saúde pública. E propõe lei que ameaça a parte mais vulnerável da população brasileira.

O senador Guaracy Silveira, do PSL do Tocantins, entrou numa infame cruzada contra a saúde pública, armado apenas pela própria convicção sobre as complexidades do tema em questão.

Em síntese, o senador propõe uma lei, o PL 545/18, liberando o uso de antibióticos sem prescrição, e clama que a Assistência Farmacêutica – um direito consagrado dos brasileiros para ter dispensação de medicamentos de forma segura, eficaz, com menor custo para si e para a sociedade – não passa de corporativismo de classe.

Não seria possível, é claro, sustentar tal narrativa ao se olhar os dados disponíveis sobre internações hospitalares por intoxicação medicamentosa, aumento da resistência bacteriana por uso inadequado de antibióticos, e mesmo as informações sobre economia de recursos públicos com o gerenciamento de medicamentos por farmacêuticos nas farmácias públicas.

Frente a tais dados, qualquer pessoa sensata não se atreveria a cometer frases como ” a presença dos farmacêuticos nas farmácias torna mais caro o preço do remédio”. Pois uma pessoa sensata costuma se envergonhar da própria ignorância.

O senador Guaracy não se incomoda com isso. Seria apenas constrangedor, se não fosse também um ataque ao setor mais vulnerável da população brasileira, aquela que tem pouco ou nenhum acesso aos médicos e ao sistema público de saúde.

Pois estes são os brasileiros que estão gratos com os serviços farmacêuticos prestados, muitas vezes, de forma gratuita e dedicada nas farmácias. A prescrição farmacêutica de medicamentos isentos de prescrição médica ajuda, diariamente, milhares de brasileiros a decidirem melhor sobre sua saúde.

O controle de procedência dos medicamentos feito por farmacêuticos Responsáveis Técnicos praticamente elimina riscos de pirataria, segundo dados da Polícia Federal. Os farmacêuticos estão na linha de frente de combate a medicamentos falsificados, uma perversa prática que devasta a saúde pública em países com legislação mais atrasada.

O senador Guaracy não quer nem saber. Quanto confrontado com a realidade, saca seus argumentos infundados e os atira na cara da sociedade sem qualquer precisão científica. Sua imunidade parlamentar e seu foro privilegiado asseguram que possa fazer isto sem sofrer as consequências de um cidadão comum que espalhe injúrias, difamações e falsas notícias.

Talvez faça assim por simples ignorância, talvez, e neste caso estas manifestações públicas poderiam iluminar vossa excelência.
Mas o faz em defesa de qual interesse?

Da saúde pública, não é. Pois quem quer ampliar o acesso dos brasileiros à saúde pública, estuda sobre saúde pública. Como os farmacêuticos.

O senador nos coloca na difícil posição de ter que explicar o óbvio à sociedade. Que a presença dos farmacêuticos em todos os estabelecimentos, durante todo o horário de funcionamento, é uma medida de segurança vital para a saúde pública. Que isso se relaciona com proteção social, combate à pirataria e falsificação, segurança sanitária, respeito aos prazos de validade e condições de armazenamento, dispensação segura, orientada e eficaz, contenção de epidemias, combate ao uso irracional de antibióticos, e por aí adiante.

Ao contrário do senador Guaracy, a sociedade brasileira vai nos ouvir, porque quer saúde de qualidade e quer evoluir. E não considera a ignorância uma bênção.

CRF-SC
ÉTICA NA SAÚDE.

Clique aqui e diga NÃO ao PLS 545/2018.

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